A Lembrança

Juan Ramón JiménezNão te afastes, lembrança, não te afastes! 
Rosto, não te desfaças, assim, 
como na morte! 
Continuai a olhar-me, olhos enormes, fixos, 
como um instante me olhastes! 
Lábios, sorri-me, 
como me sorristes um instante! 

Ai, fronte minha, aperta-te; 
não deixes que se espalhe 
sua forma fora do seu vaso! 
Oprime o seu sorriso e o seu olhar, 
até serem a minha vida interna! 

— Embora me esqueça de mim mesmo; 
embora o meu rosto, de tanto o sentir, tome 
a forma do seu rosto; 
embora eu seja ela 
e nela se perca a minha estrutura! — 

Oh lembrança, sê eu! 
Tu — ela — sê lembrança inteira e única, para sempre; 
lembrança que me olhe e me sorria 
no nada; 
lembrança, vida com minha vida, 
feita eterna, apagando-me, apagando-me! 


Juan Ramón JiménezEspanha1881 // 1958Poeta

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