Um anjo ofereceu-me um mundo de palavras só para mim deixei que lentamente penetrassem a carne do meu corpo e o meu coração já desprendido pulsou sangue de esperança julguei que abraçava de novo na noite a minha alma gémea mas afinal amputei as asas a um anjo abandonado por deus um anjo de cabelo negro com uma ferida aberta no ventre afiei os lápis no gelo cortante do gin e abri-lhe mais a ferida deixei-o encurralado no quarto de banho cheio de névoa mortal para a flor do seu corpo se desvanecer sob uma nuvem de sangue agora já não há golpes nos pulsos que possam redimir o crime condeno-me a uma morte dilatada com vinho e fumo e velas fogueiras acesas a noite inteira à espera de uma brisa de asas em sonhos mergulho inteiro na ferida aberta do seu ventre e depois embriago-me indiferente aos copos estilhaçados e aos cigarros esquecidos a abrirem buracos no corpo defendo-me desenhando desculpas no sangue coagulado na pia na merda da sanita e nos ranhos matinais de cinza e de ressacas mas isso não cicatriza a ferida aberta no ventre do meu anjo caído o pó invade os móveis e as roupas tingidas de preto desbotam sem saber onde estará o meu anjo se ganhou novas asas brancas se continua aberta a ferida no seu ventre se há ainda sangue sequer tenho as facas preparadas para amputar um a um dez dedos dez ou para vazar os olhos ou para cortar a língua suja e corrompida pelas palavras que não disse ou disse gritando-as para um poço se calhar as asas do meu anjo já não vão crescer brancas ou não melhor seria eu ter nascido já amputado de pés e mãos e língua esterilizado de todas as palavras e pensamentos perigosos a faca mais aguçada não será capaz de me abrir uma ferida no ventre por isso o nosso sangue e tripas e fezes nunca se hão-de misturar nenhum milagre cicatrizará a sua ferida aberta e a minha por abrir não era bem isto que eu queria dizer-lhe agora ou antes ou nunca, como um castigo a ferida no seu ventre continua aberta e a latejar o sangue seiva a brotar com a esperança de frutos futuros talvez para mim já não há nem deuses misericordiosos nem ninguém cubro o corpo de cinza e pedras da praia e uma vela escarlate acesa até ao fim do mundo. Carlos Alberto Machado
Começasse a levantar o nevoeiro e a poeira desvanece são linhas?, será prosa?, ou simples peças soltas? Lava as vistas e aprecia Poesia!
Um anjo ofereceu-me um mundo de palavras só para mim
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