O Horror de ser Pobre

Risco c'um traço 
(Um traço fino, sem azedume) 
Todos os que conheço, eu mesmo incluído. 
Para todos estes não me verão 
Nunca mais 
Olhar com azedume. 

O horror de ser pobre! 
Muitos gabavam-se que aguentariam, mas era ver- 
-lhes as caras alguns anos depois! 
Cheiros de latrina e papéis de parede podres 
Atiravam abaixo homens de peitaça larga como toiros. 
As couves aguadas 
Destroem planos que fazem forte um povo. 
Sem água de banho, solidão e tabaco 
Nada há que exigir. 
O desprezo do público 
Arruina o espinhaço. 
O pobre 
Nunca está sozinho. Estão todos sempre 
A espreitar-lhe pra o quarto. Abrem-lhe buracos 
No prato da comida. Não sabe pra onde há-de ir. 
O céu é o seu tecto, e chove-lhe lá pra dentro. 
A Terra enxota-o. O vento 
Não o conhece. A noite faz dele um aleijado. O dia 
Deixa-o nu. Nada é o dinheiro que se tem. Não salva ninguém. 
Mas nada ajuda 
Quem dinheiro não tem. 



Bertolt BrechtAlemanha1898 // 1956Escritor/Dramaturgo

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