Com a Fortuna não Perde o Ser de Besta

Francisco BingreNa carreira veloz, a deusa cega 
Lança às vezes a mão a um feio mono 
E o sobe, num instante, a um coche, a um trono, 
Onde a Virtude com trabalho chega. 

Porém se, louca, num jumento pega, 
Por mais que o erga não lhe dá abono: 
Bem se vê que foi sonho de seu sono, 
Quando a vara ou bastão ela lhe entrega. 

Pouco importa adornar asno casmurro 
Com jaezes reais, mantas de festa, 
Se a conhecer se dá no rouco zurro. 

Quem, no berço, por vil se manifesta, 
Quem nele baixo foi, quem nace burro, 
Co'a Fortuna não perde o ser de besta. 


Francisco Joaquim BingrePortugal1763 // 1856Poeta

Sem comentários:

Enviar um comentário