Angulo

Aonde irei neste sem-fim perdido, 
Neste mar ôco de certezas mortas? - 
Fingidas, afinal, todas as portas 
Que no dique julguei ter construido... 

- Barcaças dos meus impetos tigrados, 
Que oceano vos dormiram de Segrêdo? 
Partiste-vos, transportes encantados, 
De embate, em alma ao rôxo, a que rochêdo?... 

- Ó nau de festa, ó ruiva de aventura 
Onde, em Champanhe, a minha ânsia ia, 
Quebraste-vos também ou, por ventura, 
Fundeaste a Ouro em portos d'alquimia?... 

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 

Chegaram à baía os galeões 
Com as sete Princesas que morreram. 
Regatas de luar não se correram... 
As bandeiras velaram-se, orações... 

Detive-me na ponte, debruçado, 
Mas a ponte era falsa - e derradeira. 
Segui no cais. O cais era abaulado, 
Cais fingido sem mar á sua beira... 

- Por sôbre o que Eu não sou há grandes pontes 
Que um outro, só metade, quer passar 
Em miragens de falsos horizontes - 
Um outro que eu não posso acorrentar... 




Mário de Sá-CarneiroPortugal1890 // 1916Poeta/Contista/Ficcionista

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